Antes de contar como o Japão mudou completamente a minha vida, eu preciso ser honesto sobre onde eu estava antes de tomar essa decisão.
Porque não foi um plano ousado, nem uma escolha glamourosa. Foi sobrevivência.
Quando a formação não garante estabilidade
Eu me formei em Direito no final de 2021.
Até então, era estagiário na Vara Criminal do fórum da minha cidade, acreditando que, com o diploma em mãos, a vida começaria a se organizar.
Não foi bem assim.
Peguei uma dependência no fim do curso e, ao mesmo tempo, tinha uma viagem marcada para fevereiro de 2022 para a Espanha, onde meu pai mora. Mesmo com ele pagando boa parte da viagem, precisei arcar com alguns custos. Fiz essa viagem, passei três meses na Europa e voltei ao Brasil ainda com uma dívida controlada.
Até ali, apesar dos apertos, a situação não estava fora de controle.
Onde a bola de neve realmente começou
O problema começou depois que voltei da Europa.
Na tentativa de não “mirar baixo” e buscar algo alinhado com a minha formação, tomei a decisão de sair da casa da minha mãe e me mudar para outra cidade para trabalhar em um escritório de advocacia.
Antes disso, eu trabalhava em dois empregos ao mesmo tempo:
um escritório de contabilidade e uma lanchonete. Morando com a minha mãe, eu ganhava mais do que passei a ganhar depois.
Quando me mudei para trabalhar na área de Direito, minha renda diminuiu e meu custo de vida aumentou drasticamente. Aluguel, alimentação, contas básicas e despesas que antes não existiam passaram a fazer parte da rotina.
Foi aí que a conta deixou de fechar.
Viver calculando tudo cansa mais do que parece
Entre 2022 e 2024, eu vivia em um looping mental constante.
Ganhava em torno de R$ 3.000 por mês, um valor razoável para a cidade onde eu morava, mas completamente incompatível com o tamanho das dívidas que eu acumulava.
Eu pensava em dinheiro o tempo todo.
No mercado, cada item no carrinho era calculado.
Qualquer gasto simples virava um dilema.
Mesmo cortando tudo o que dava, a sensação era de estar sempre correndo atrás.
Isso foi drenando minha saúde mental e afetando meus relacionamentos. Não só amorosos, mas amizades também. Eu me fechei. Não contei para minha família. Tinha vergonha, medo e a sensação constante de fracasso.
À noite, a pergunta era sempre a mesma:
“Como eu vou sair disso?”
Quando pedir ajuda não resolve
Chegou um momento em que a dívida atingiu um patamar que eu sabia, com clareza, que não havia como pagar sozinho. Pedi ajuda financeira à minha mãe e ao meu padrasto para tentar quitar tudo e impedir que os juros continuassem crescendo.
Eles não puderam ajudar. Não por falta de vontade, mas porque o dinheiro que tinham já estava comprometido com outros planos.
Ali ficou claro:
eu não tinha mais margem de erro.
Por que o Japão virou a saída possível
O Japão sempre foi meu plano B.
Sou descendente de japoneses, sansei, terceira geração. Morei no Japão por cerca de quatro anos quando era criança, entre os seis e dez anos de idade. Conhecia minimamente o idioma, a cultura e sabia como o país funcionava.
Cheguei a considerar a Espanha, já que tenho família lá. Mas, sendo realista, eu demoraria muito tempo para regularizar documentação e conseguir estabilidade financeira.
No Japão, o caminho era mais direto.
Empresas que auxiliam com visto, emprego definido antes da chegada, documentação encaminhada, apartamento semi-mobiliado pronto para morar e suporte inicial com burocracia.
Não era um sonho.
Era uma rota de saída.
Chegar ao Japão devendo quase R$ 200 mil
Quando cheguei ao Japão, minha dívida já se aproximava dos R$ 200 mil, inflada principalmente por juros acumulados ao longo dos anos.
Eu estava esgotado, sem perspectiva no Brasil e sem enxergar saída.
O Japão não resolveu minha vida da noite para o dia. O trabalho é pesado, a rotina é cansativa, especialmente para quem trabalha em fábrica. Existe um custo físico e mental real.
Mas ele me deu algo que eu não tinha há muito tempo: previsibilidade.
O que realmente mudou na prática
Depois de quase dois anos no Japão, minha realidade é outra.
Hoje:
- Quitei todas as dívidas que estavam fora de controle
- A única dívida que tenho é o financiamento de um apartamento no Brasil, comprado como investimento
- Tenho carro
- Moro em um apartamento organizado
- Consigo planejar o futuro
- Troquei de celular pela primeira vez comprando um modelo atual
- Fiz uma nova viagem internacional com meu próprio dinheiro
Depois de cerca de um ano e meio no Japão, consegui viajar novamente para a Europa por duas semanas. Conheci Istambul, na Turquia, e também pude visitar meu pai e minha família que moram na Europa.
Foi a primeira vez que uma viagem desse porte foi paga integralmente por mim. Não por ajuda, não por favor, não por parcelamento infinito.
No Brasil, eu já tinha desistido da ideia de ter carro, casa própria ou qualquer tipo de estabilidade. Andava apenas de bicicleta e vivia no modo sobrevivência.
O Japão me tirou da corrida dos ratos.
Sair do país não é fuga. Às vezes, é estratégia.
Eu não romantizo sair do Brasil.
Não é fácil. Não é leve. Não é para todo mundo.
Mas, para quem está afundado em dívidas, sem esperança e sem enxergar saída, mudar de país pode ser a virada de chave. Foi para mim.
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