Em 2023, eu me vi em uma situação que muitos brasileiros conhecem bem: o efeito “bola de neve”. Eu tinha um montante de dívidas que, pelas minhas contas, seria impossível pagar com o salário e as perspectivas que eu tinha no Brasil naquela época. Eu estava diante de um cálculo frio: ou eu passando os próximos 5 ou 10 anos da minha vida trabalhando apenas para pagar juros, ou eu mudava o jogo financeiro.
Foi aí que decidi imigrar para o Japão em 2024. Mas, antes de embarcar, uma dúvida que me tirava o sono era a mesma que talvez você tenha agora: “Ter dívidas no Brasil me impede de sair do país?”
O medo de ser barrado: mito ou realidade?
A grande verdade é que, para a imensa maioria dos casos, dívidas civis (bancos, cartões, empréstimos) não impedem ninguém de imigrar . A menos que você tenha uma dívida com a Receita Federal ou um processo criminal com sentença julgada que determine a apreensão do passaporte — coisa extremamente rara de acontecer — você não será barrado na Polícia Federal.
No meu planejamento, eu garanti que minhas pendências não envolvessem órgãos governamentais. Eram dívidas de consumo: cartão de crédito e bancos. Se esse for o seu caso, o caminho é livre para você buscar sua estabilidade em outro lugar.
A estratégia do “poder de barganha”: como bastante 200 mil reais
Minha estratégia não foi fugir, mas sim ganhar tempo e moeda forte . No Brasil, eu não tinha poder de negociação porque não tinha o dinheiro à vista, meu salario no escritório de advocacia em que trabalhava, mal era suficiente para me manter. Ao vir para o Japão, comecei a acumular mensalmente em Iene.
Aqui vai o papo reto sobre como os bancos funcionam: enquanto você está no Brasil tentando parcelar, os juros te esmagam. Quando você sai e deixa a dívida lá, o banco entende que aquele valor virou um “prejuízo provável”. Com o passar dos meses, eles começam a oferecer acordos cada vez mais agressivos.
Minha experiência real:
C6 Bank: Eu tinha uma dívida original de 16 mil reais. Com os juros acumulados, o banco queria que eu pagasse por volta de 60 mil reais. Esperei, juntei o dinheiro no Japão e, quando surgiu um acordo vantajoso, paguei tudo à vista por 2.500 reais.
Nubank: Minha dívida original era de 10 mil reais, mas com os juros ela já beirava os 80 mil reais. Esperei o momento certo e fechei um acordo para quitar tudo por cerca de 6 mil reais.
O segredo é simples: não aceitei o primeiro acordo . Fui para fora, juntei o montante e esperei o banco chegar ao valor que eu realmente podia pagar à vista. O desconto pode chegar a mais de 90%.
Onde concentrar suas dívidas: a tática da Caixa Econômica
Uma dica de ouro que eu uso: se você tem dívidas, tente concentrar-se nos bancos que você não pretende usar no futuro. Isso porque, após um acordo com desconto, aquele banco voltará a te dar crédito.
Eu sempre soube que queria investir em imóveis no Brasil. Por isso, nunca fiz dívidas na Caixa Econômica Federal . Apesar de achar o sistema burocrático, a Caixa é imbatível para financiamento imobiliário. Mantive meu nome limpo lá enquanto resolvia pendências em outros bancos, como o Nubank e o C6 Bank.
Quando vale a pena parcelar o acordo?
Eu recomendo pagar tudo à vista para ter o maior desconto possível. Porém, vivenciei uma exceção com o banco Rico. Fiz um acordo parcelado exclusivamente porque eu precisava limpar meu nome no Serasa rapidamente para aprovar o financiamento de um apartamento na planta pela Caixa.
Assim que você paga a primeira parcela de um acordo, seu nome sai da negativação. Essa é uma estratégia excelente para quem, como eu, ama o Brasil e quer voltar para empreender e investir em imóveis.
Cuidado com dívidas que têm garantia
Se você tem dívidas com garantia — como um carro financiado ou um imóvel — tome cuidado. Nesses casos, o banco pode levar o bem mesmo que você esteja fora do país. No meu caso, todas as minhas dívidas eram de cartão de crédito, sem garantia, o que facilitou muito a estratégia.
Conclusão: o Japão como acelerador de vida
O que eu levaria 5 anos para resolver no Brasil, isso no melhor cenário, resolvi em 1 ano de trabalho duro no Japão . Mesmo considerando o custo de vida, moradia e mobília, a força da moeda e a segurança do contrato de trabalho me permitiram limpar meu nome e ainda começar a investir.
Imigrar com dívidas é uma decisão séria. Recomendo que você leia também meu post sobre os erros comuns de quem começa a planejar imigração para não queimar sua reserva financeira à toa. O objetivo não é apenas pagar o passado, mas construir um futuro estável.