Quando decidi sair do Brasil em 2024, uma das primeiras coisas que pesquisei foi: como conseguir um visto de trabalho?
A resposta que descobri foi: depende.
Depende do país, da sua qualificação, da sua descendência, do seu idioma, do seu dinheiro. Cada país tem regras próprias, processos diferentes, e níveis de dificuldade que variam muito.
No meu caso, vim para o Japão como descendente de japoneses (nikkei de terceira geração). O processo foi muito mais fácil do que eu imaginava: a empresa me contratou, fez toda a documentação, eu já cheguei com apartamento pronto e emprego garantido. O idioma não foi uma barreira tão grande porque a prefeitura da cidade onde moro tem tradutores, e muita coisa já está adaptada para brasileiros.
Mas eu sei que essa não é a realidade da maioria. Para quem não tem descendência, conseguir visto de trabalho pode ser um processo longo, caro e complicado.
Neste post, vou te explicar como funcionam os vistos de trabalho pelo mundo, quais são os tipos principais, quais países são mais fáceis ou mais difíceis, e como você pode descobrir qual caminho faz sentido para você.
O que é visto de trabalho
Visto de trabalho é uma autorização oficial para você entrar e trabalhar legalmente em outro país por um período determinado.
Diferente do visto de turista (que não permite trabalho), o visto de trabalho te dá o direito de:
- Trabalhar legalmente
- Receber salário
- Ter carteira de trabalho (ou equivalente)
- Acessar alguns benefícios (dependendo do país)
Mas atenção: visto de trabalho não é residência permanente. Na maioria dos casos, ele é temporário e precisa ser renovado. Se você perder o emprego, pode perder o visto também (dependendo do país).
Se você ainda tem dúvidas sobre a diferença entre visto, residência e cidadania, recomendo ler o post onde explico a diferença entre visto, residência e cidadania na prática. Lá fica bem claro o que cada status te dá de direito.
Tipos principais de visto de trabalho
Cada país tem suas próprias categorias, mas de forma geral, os vistos de trabalho se dividem em:
1. Visto de trabalho patrocinado por empresa
A empresa te contrata e “patrocina” seu visto. Ela faz a maior parte da burocracia e comprova que você é necessário para aquela vaga.
Exemplos de países: EUA (H-1B), Canadá (LMIA), Austrália (TSS), Reino Unido (Skilled Worker), Japão (visto de trabalho comum).
Vantagens:
- A empresa resolve a maior parte da burocracia
- Você já chega com emprego garantido
Desvantagens:
- Você fica “preso” àquela empresa. Se for demitido, pode perder o visto.
- Nem todas as empresas topam patrocinar estrangeiros (é caro e burocrático para elas).
2. Visto de trabalho por pontos (skilled migration)
Você acumula pontos baseados em idade, formação, experiência, idioma, etc. Se atingir a pontuação mínima, pode aplicar para o visto.
Exemplos de países: Canadá (Express Entry), Austrália (SkillSelect), Nova Zelândia (Skilled Migrant).
Vantagens:
- Você não precisa de uma empresa patrocinadora antes de ir
- Pode buscar emprego depois de chegar
Desvantagens:
- Processo longo (pode levar meses ou anos)
- Exige qualificação alta e pontuação competitiva
3. Visto de trabalho por descendência
Se você tem ascendência de determinado país, pode ter direito a um visto facilitado (ou até cidadania direta).
Exemplos de países: Japão (nikkei), Itália (cidadania por descendência), Portugal (cidadania por descendência), Alemanha (descendentes de alemães), Irlanda (avós irlandeses).
Vantagens:
- Processo muito mais fácil e rápido
- Em alguns casos, você já entra como cidadão (não precisa de visto)
Desvantagens:
- Só funciona se você tiver a descendência comprovada
- Pode exigir documentação antiga e traduzida
Foi o meu caso. Como sou descendente de japoneses, consegui o visto de longa permanência sem grandes dificuldades. A empresa fez a documentação, e o processo foi bem mais simples do que seria para alguém sem descendência.
4. Working Holiday Visa
Visto temporário (geralmente 1 ano, não renovável) para jovens (18-30 ou 18-35 anos, dependendo do país) que querem trabalhar e viajar ao mesmo tempo.
Exemplos de países: Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Irlanda, França, Alemanha, Japão.
Vantagens:
- Fácil de conseguir
- Você pode trabalhar e viajar livremente
- Não precisa de empresa patrocinadora
Desvantagens:
- Temporário (não leva à residência permanente)
- Limite de idade
- Não renovável (na maioria dos casos)
5. Visto de trabalho autônomo / freelancer
Para quem trabalha como freelancer, empreendedor digital, ou tem renda própria.
Exemplos de países: Portugal (D7 Visa), Espanha (Digital Nomad Visa), Alemanha (Freelance Visa), Estônia (Digital Nomad Visa).
Vantagens:
- Você não depende de empresa
- Pode trabalhar remotamente para clientes de qualquer lugar
Desvantagens:
- Precisa comprovar renda estável
- Nem todos os países oferecem essa opção
Países e regiões: características gerais
Cada região do mundo tem suas próprias regras e facilidades. Vou te dar uma visão geral:
América do Norte (EUA e Canadá)
EUA:
- Visto de trabalho mais comum: H-1B (para profissionais qualificados)
- Processo complicado e competitivo (sorteio anual)
- Empresa precisa patrocinar
- Salários altos, mas custo de vida também
Canadá:
- Sistema de pontos (Express Entry)
- Mais acessível que os EUA
- Valoriza formação, idioma (inglês/francês), experiência
- Caminho claro para residência permanente
Europa
Portugal:
- Relativamente fácil para brasileiros
- Visto D7 (para quem tem renda passiva) e visto de trabalho
- Caminho para cidadania em 5 anos
- Custo de vida mais baixo que outros países europeus
Espanha:
- Visto de trabalho exige contrato de empresa espanhola
- Processo burocrático
- Caminho para cidadania em 10 anos (2 anos para descendentes de espanhóis)
Alemanha:
- Visto de trabalho para profissionais qualificados
- Exige alemão (na maioria dos casos)
- Salários altos, economia forte
Irlanda:
- Visto de trabalho para profissionais qualificados (especialmente TI)
- Inglês como idioma oficial
- Processo relativamente rápido
Oceania (Austrália e Nova Zelândia)
Austrália:
- Sistema de pontos (SkillSelect)
- Salários altos
- Exige inglês avançado
- Processo caro, mas caminho claro para residência permanente
Nova Zelândia:
- Sistema de pontos (Skilled Migrant)
- Menos competitivo que Austrália
- Qualidade de vida alta
Ásia (Japão, Coreia do Sul, Singapura)
Japão:
- Para descendentes (nikkei): processo muito mais fácil, visto de longa permanência, menos exigências de idioma
- Para não descendentes: visto de trabalho comum, exige patrocínio de empresa, idioma pode ser barreira
No meu caso, como descendente, o processo foi extremamente facilitado. A empresa me contratou, fez toda a documentação, e cheguei com tudo pronto: apartamento, emprego, suporte da prefeitura com tradutores. Foi muito mais fácil do que eu imaginava.
Coreia do Sul:
- Visto de trabalho para profissionais qualificados
- Exige coreano (na maioria dos casos)
- Mercado competitivo
Singapura:
- Visto de trabalho para profissionais qualificados (especialmente TI, finanças)
- Salários altos
- Processo relativamente rápido
Requisitos comuns para visto de trabalho
Embora cada país tenha suas regras, alguns requisitos são comuns na maioria dos lugares:
1. Oferta de emprego (ou comprovação de renda)
Na maioria dos casos, você precisa de uma empresa que te contrate e patrocine o visto. Ou, no caso de vistos autônomos, comprovar renda estável.
2. Qualificação profissional
Diploma universitário, certificações, experiência comprovada. Países desenvolvidos geralmente exigem qualificação alta.
3. Idioma
Inglês, francês, alemão, japonês — dependendo do país. Alguns exigem teste de proficiência (IELTS, TOEFL, DELF, etc.).
4. Documentação
Passaporte válido, antecedentes criminais, exames médicos, diplomas traduzidos e autenticados, comprovantes financeiros.
5. Taxas
Vistos de trabalho custam dinheiro. Pode variar de algumas centenas a milhares de dólares, dependendo do país.
Países mais fáceis vs mais difíceis
Mais fáceis (geralmente):
- Canadá (sistema de pontos claro)
- Portugal (para quem tem renda ou descendência)
- Austrália (se você tiver pontuação alta)
- Japão (para descendentes)
- Irlanda (para profissionais de TI)
Mais difíceis (geralmente):
- EUA (processo competitivo, sorteio)
- Suíça (exigências altíssimas)
- Noruega (mercado fechado)
- Japão (para não descendentes sem qualificação alta)
Como escolher o melhor caminho para você
Antes de escolher o país e o tipo de visto, pergunte a si mesmo:
- Eu tenho descendência de algum país? Se sim, esse pode ser o caminho mais fácil.
- Eu tenho qualificação alta? (diploma, experiência, idioma) Se sim, sistemas de pontos (Canadá, Austrália) podem funcionar.
- Eu tenho oferta de emprego? Se sim, visto patrocinado por empresa pode ser o caminho.
- Eu trabalho como freelancer? Se sim, vistos para nômades digitais (Portugal, Espanha) podem fazer sentido.
- Eu sou jovem e quero testar? Working Holiday pode ser uma boa opção.
Se você ainda está no começo do planejamento e quer entender melhor todo o processo de imigração, recomendo ler o guia completo sobre imigração que eu escrevi. Lá eu explico como escolher o país certo, planejar financeiramente, e evitar os erros mais comuns.
Erros comuns ao buscar visto de trabalho
1. Aplicar sem pesquisar direito
Cada país tem regras específicas. Não adianta aplicar para um visto que você não se qualifica.
2. Não ter documentação em ordem
Diplomas não traduzidos, antecedentes criminais vencidos, passaporte com validade curta — tudo isso pode atrasar ou negar seu visto.
3. Subestimar o tempo de processo
Alguns vistos demoram meses (ou até anos). Planeje com antecedência.
4. Não ter reserva financeira
Mesmo com emprego garantido, você precisa de dinheiro para os primeiros meses. Não vá contando que vai “se virar”.
Se você quer evitar os erros mais comuns de quem está começando a planejar imigração, vale a pena ler o post onde eu listo os erros comuns de quem começa a planejar imigração. Lá eu explico cada um em detalhes.
Conclusão
Vistos de trabalho pelo mundo variam muito de país para país. Não existe “melhor visto” ou “país mais fácil” de forma absoluta. Existe o que faz sentido para você, com sua qualificação, seus objetivos e suas condições.
No meu caso, o Japão foi a escolha certa porque eu tinha descendência, e o processo foi muito mais fácil do que seria em outros lugares. Mas para outra pessoa, o Canadá, Portugal ou Austrália podem fazer mais sentido.
O importante é pesquisar, planejar, e escolher o caminho que se encaixa no seu perfil.
Boa sorte na sua jornada! 🌍